quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Os "fantasmas" formadores

História de vida como método formativo

O coração palpitava, as mãos suavam, as pernas tremiam. Sentia um calor a percorrer-me todo o corpo. Hesitei. Dei um passo atrás devido ao peso das dúvidas, cheio de receios da exposição pública, mas principalmente pelos fantasmas que me rodeavam. Inspirei fundo, abri a porta e avancei…
Tinha sido convidado por uma escola de enfermagem para leccionar uma aula. Era objectivo desta aula, dar a conhecer aos estudantes de enfermagem, uma imagem do quanto pode ser importante o papel do enfermeiro no acompanhamento de um casal infértil.
O grande problema é que esta aula se baseava na minha história de vida. Aceitei. Senti que poderia alertar os futuros enfermeiros, para os desequilíbrios, para as necessidades e para as angústias que as pessoas vivenciam quando sujeitas a uma situação de infertilidade. Inicialmente pensei, que embora não tivesse todo o suporte formativo para leccionar aquela aula, tinha a certeza de que esta não seria desprovida de sentido, uma vez que tinha vivenciado esta experiência quer como enfermeiro quer como parte integrante de um casal infértil.
Estava perante uma audiência de trinta pessoas que não conhecia, a expor um acontecimento traumático, que condicionou todo o resto da minha vida.
O aceitar este desafio, decorreu da necessidade de querer contribuir, de algum modo, para minimizar um problema que afecta tantos casais, sensibilizando os futuros enfermeiros sobre esta problemática, muitas vezes abordada apenas pela classe médica. È de salientar que neste domínio em particular, cada vez mais o papel do enfermeiro é crucial: apoiando, escutando, informando, … enfim, “cuidando do casal”. Demétrio (2005; p. 21) refere que, “Aquele momento em que sentimos o desejo, de narrarmos a nossa própria história é o sinal de uma nova etapa na nossa maturidade”.
Ao iniciar a aula, os estudantes de enfermagem sabiam que eu iria falar sobre métodos de reprodução medicamente assistidos. Principalmente sobre a área de actuação de enfermagem em cada uma das técnicas de reprodução assistida. Sabiam também, que iriam ser abordados diagnósticos e intervenções de enfermagem utilizando a CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem), tendo como exemplo um hipotético casal.
Porém, notei que, após esta hora de aula, apesar do assunto lhes ter parecido de bastante interesse, os estudantes já apresentavam sinais de cansaço e um pouco perdidos em relação às técnicas, diagnósticos e intervenções.
Foi então que adoptei outra estratégia. Comecei a contar a história de um casal infértil, com muita vontade em resolver este problema.
Com esta metodologia detectei muito mais atenção por parte dos estudantes. Penso que retiveram muito mais a temática da aula, tornando-se mais intervenientes, identificando facilmente, onde o enfermeiro pode e deve intervir. Mas o que os estudantes não sabiam inicialmente, é que aquela história era inteiramente verdadeira e aconteceu com o formador que estava perante eles.
Com esta experiência formativa, apercebi-me que utilizando a metodologia autobiográfica criava mais “desequilíbrios” ou momentos reflexivos nos estudantes. Por um lado, despertei o interesse para que sentissem a necessidade de aprender mais, numa perspectiva de autoformação. Por outro lado, para que eles se colocassem numa perspectiva de análise de casos que conheciam, desmistificando pensamentos pré-concebidos e muitas vezes socialmente estereotipados.
Tomando consciência que este tipo de situações existe e pode acontecer a qualquer casal, inclusive a cada um deles, pode prepará-los melhor no desempenho da sua actuação como enfermeiros, pois como refere Josso (2002, p. 8), “ (...) a consciência nasce quando interpretamos um objecto com o nosso sentido autobiográfico, a nossa identidade e a nossa capacidade de anteciparmos o que há de vir”. Também Canário (1999, p. 116) refere que, “ (…) a formação é, assim, feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de vida”.
De igual forma para mim, como formador foi benéfico, já que falar de um acontecimento traumático e de um processo doloroso não foi fácil, por isso, encarei este método autobiográfico como método terapêutico.
Ao contar a minha história de vida de uma forma continuada, distancio-me dela, mas não tanto para não falar com paixão de algo que me é próximo, pois como entende Demétrio (2005, p. 10) “A paixão pelos aspectos do passado, que ganham realce, transforma-se em paixão pela vida futura”.
Por outro lado, “o contar repetidamente”, permite-me enfrentar os meus “fantasmas” consequentemente uma “banalização” deste período crítico, entrando num processo de auto-conhecimento, de auto-formação, de auto-avaliação e de auto-orientação que enriquecerá os três domínios do saber. Além disso, vou também fazendo a minha catarse enquanto me revelo aos estudantes.
Ao falar sobre mim, consigo apesar de tudo, exercer uma consciência critica sobre a situação da infertilidade e ao mesmo tempo reflectir com os estudantes sobre esta temática. Uma vez que a minha reflexão leva-me a questionar a relevância da problemática da infertilidade e sobre o meu posicionamento enquanto pessoa e enquanto profissional. Analisar e reflectir sobre estas premissas são o que caracteriza uma reflexão critica. Permite-me integrar e sobretudo pensar as memórias, a capacidade de desejar, e a capacidade de tolerar a dor um projecto futuro.
Pergunto-me a mim mesmo, enquanto enfermeiro, de que modo poderia atenuar o grande sofrimento dos casais, que enfrentam um problema, para o qual não estavam minimamente preparados. Penso que, com a minha história de vida, também influenciada por uma situação de infertilidade, adquiri competências para os ajudar a encarar de uma forma positiva o problema. Gostaria também que, a minha presença nestas aulas, ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise.
Quantos de nós, profissionais de saúde, não temos “fantasmas” que nos assolam, quantos de nós não temos problemas de saúde, ou simplesmente estivemos internados num qualquer hospital. A nossa vivência pode ser útil para despertar consciências sobre a nossa actuação, sobre o nosso verdadeiro papel. Falar ou escrever sobre aquilo que nos fizeram, esperávamos que nos fizessem ou simplesmente não nos fizeram, pode adquirir outra dimensão. Em resumo, despertar consciências, ou simplesmente como dizia um professor “ver com outros óculos”, um fenómeno que nos ocorreu. Contar pode ser importante para cada um de nós, como ouvir pode ser importante para quem nos escuta.
Considero que a abordagem desta temática foi importante, pois permitiu-me a mim como pessoa e como profissional, dar o meu pequeno contributo na formação destes futuros profissionais. Permitiu-me também enfrentar os meus “fantasmas”, que consegui ultrapassar no momento em que abri a porta e avancei e no momento em que escrevo estas linhas. Apesar de tudo, pretendo continuar, pois como diz Saint-Exupéry “ Não podes continuar estático num mundo que se transforma à tua volta”.
Esta minha experiência formativa permitiu reflectir sobre duas vertentes problemáticas da autobiografia: a autobiografia como método formativo e a autobiografia como método terapêutico.
Se como refere Canário (1999, p. 109), “a experiência de quem aprende torna-se o ponto de chegada dos processos de aprendizagem”, também não me parece desprovido de verdade que a experiência de quem “ensina” torna-se o ponto de partida para os processos de aprendizagem.
Quando falamos neste assunto da formação de enfermeiros podemos e devemos enquadrar na formação de adultos. Nessa perspectiva, a formação dos enfermeiros incide bastante na importância da experiência, pois esta está intimamente ligada à prática. Consequentemente ligada à vida do enfermeiro. Já Jarvis (1992, p. 174) localiza a formação dos enfermeiros “ (…) na interface da autobiografia e do meio sociocultural em que as pessoas vivem”.
Ao terminar interiorizo Nóvoa (1988, p. 115) cit. Remy Hees (1985), “Formar-se não é instruir-se, é antes de mais reflectir, pensar numa experiência vivida, (…), é aprender a construir uma distância face à experiência vivida, é aprender a contá-la através de palavras, é ser capaz de conceptualizar”

COMENTÀRIO:

Esta experiência que me aconteceu, foi realmente algo que me fez despertar com mais intensidade a problemática das histórias de vida e como elas podem ser vistas no contexto formativo pessoal, como também dos que nos rodeiam.
O artigo inicia sobre a explicação do motivo do convite para dar aulas na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, o que já me acontece há cerca de 4 anos. A temática é sobre técnicas de reprodução assistida.
O que detectei é que se procurasse explicar as técnicas de reprodução assistida, e eu próprio identificasse o papel da enfermagem no casal infértil, os estudantes tinham alguma dificuldade em manterem-se concentrados e intervenientes na aula. Os estudantes assumiam assim um papel passivo, não participando na aula, assumindo somente um papel de fiéis depositários, sem diálogo, tal como Freire descrevia a educação bancária.
A estratégia adoptada foi diferente, então utilizei a minha própria história de vida para explicar algumas técnicas e o papel do enfermeiro. Aí notou-se diferenças na participação e na interactividade dos estudantes. Como é referido “ (…), ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise”. Há neste artigo uma intenção de educar, como refere Nóvoa “ educar é preparar no presente para agir no futuro”. Mas também de reflectir sobre uma experiência formativa, na qual se deu primazia à experiência, Alarcão refere também ela, que a experiência, para ser formativa tem de ser conceptualizada e reflectida.
Assim este artigo, funciona um pouco em duas visões, uma como a experiência como método formativo, a outra visão mais pessoal será como método terapêutico do próprio formador, por isso no título a palavra “fantasmas”, o formador como que aproveitou a experiência formativa para que, como define Canário, finalizar um processo de “autoconstrução”, tirou, reelaborou e integrou as experiências vividas.
O artigo destaca também a importância de todos nós enfermeiros, podermos utilizar as nossas experiências pessoais para as transmitirmos aos alunos de enfermagem, para com eles reflectirmos sobre a prática, pois como diz Alarcão a “globalidade da pessoa constrói-se na variedade integrada das experiências vividas e assimiladas” em “permanente atitude de observação e reflexão” que deve ser individual e dos outros também, para todos podermos crescer, já que “a autoformação permanente emerge como sinónimo de um processo de educação permanente (…) que atravessa todos os tempos e todos os lugares”, como refere Canário.

6 comentários:

doutorenfermeiro disse...

Bem-vindo.
Serei um frequentador habitual.

psiquiatrices disse...

obrigado, será sempre bem vindo

A.Lopes disse...

Amigo Luis!
Psiquiatrices, não é exatamente o meu tema preferido, embora tenha um psicologo em casa. ( eu acho que a psicologia e a psiquiatria se relacionam)
O que me trouxe aqui, foi a curiosidade de espreitar um blog de alguém que não conheço, mas é da minha terra, e os nossos "dizeres" ás vezes encontram-se noutros locais como este. Mas acabei por gostar do que escreveu. Não só pela sua generosidade de partilhar os seu conhecimentos e as suas vivências pessoais em beneficio dos outros, como por me aperceber do nivel cientifico que a nossa enfermagem já possui.
Parabens por tudo isso.

Aníbal Lopes

psiquiatrices disse...

olá senhor Anibal
agradeço as palavras. Claro que Montargil irá inevitavelmente fazer parte deste blog, pois está na categoria as minhas coisas. No entanto este blog não versa somente sobre psiquiatria ou saúde mental, versa sobre as coisas que me interessam, as coisas que gosto. quanto à generosidade que fala, este blog tem como subtitulo de um amigo para amigos, o que pressupõe partilha, pois é isso que os amigos fazem. Considere-se sempre bem vindo ao Psikiatrices.

cellyvarga disse...

É interressantíssimo seu relato, realmente conviver com um problema que ocorre nos outros, já tendo passando por um semelhante deve ser ao mesmo tempo bom ( vc já antevê os cuidados e ruim pois revive o problema).Eu gostaria de saber quais foram os cuidados de enfermagem utilizados.
Obrigada.
Celly

Marianita disse...

É com alguma surpresa que leio o seu relato e começo a reconhecer algumas semelhanças com uma aula que pude ter o prazer de assistir há uns anos durante o curso. Recordo o dia em que foi convidado a ir à nossa Escola e a tão difícil tarefa de cativar uma plateia inteira de alunos cansados das aulas intermináveis de 4 ou 8 horas e os inúmeros trabalhos que se acumulavam. Se inicialmente não
se ouvia um sussurrar de vozes que ia aumentando o tom, no final da aula verificava os olhares atentos e o silêncio que perdurava, algo bastante raro acontecer.
Quando partilhou a sua história realmente prendeu a nossa atenção e todos desejávamos com alguma ânsia conhecer o final.
Foi um relato muito bonito e que muitos dos meus colegas ainda hoje recordam, tal como eu.

Obrigado por partilhar algo tão intimo e participar na nossa formação como enfermeiros.
Mariana