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terça-feira, 16 de março de 2010
terça-feira, 10 de junho de 2008
HISTORIAS DE VIDA
História de um amigo de Montargil.
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
41 DIAS SEM "FUMAR"

Já passaram 41 dias, em que coloquei "definitivamente" os cigarros de lado. Escrevo hoje pois acabo a primeira fase do tratamento. Perguntam é facil? é divertido? senteste-te melhor?
A resposta para todasestas perguntas é NÃO.
Não é facil, pois andamos constantemente a combater os nossos maus hábitos, bebe-se um café e lá vai, almoça-se ou janta-se e mais dois, tira-se o isqueiro e ... Logo também não é nada divertido, pois muitas vezes, principalmente no inicio ficamos com tempos mortos que só com o tempo é que vamos preenchendo.
A ultima pergunta, sentes-te melhor? Bem, a roupanão cheira a tabaco, tosse também não tenho, estou a poupar uns trocos, mas porque raio estou a engordar e sinto-me mais ansioso, ainda hoje passados 41 dias.
Uma coisa é certa, vou prosseguir nesta batalha interior, que requer muita força de vontade.
Boa sorte a quem tomou a mesma decisão que eu, pois esses compreendem-me melhor.
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terça-feira, 20 de novembro de 2007
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Dias de uma P.G. VII

Já há duas semanas que não ia às aulas. Uma semana por motivos profissionais e outra porque fiquei apeado na auto-estrada, sem carro, que resolveu avariar, infelizmente, para sempre. Coisas que acontecem.Recebi ontem a noticia que vou participar na abertura do Serviço de Psiquiatria do Hospital Garcia de Orta.
Hoje, o dia de aulas foi sem dúvida um dia produtivo. Eu e mais dois estudantes da Pós-Graduação apresentámos o que já tínhamos feito relativamente ao portfólio. As minhas dúvidas dissiparam-se, os meus receios afinal não têm razão de ser. Vejo que estou no bom caminho e na minha opinião a produzir trabalho que é válido na aprendizagem das temáticas da saúde mental. Apresentei o meu filme “você aprende”, sobre mim e sobre os meus gostos, sobre como vejo a vida. Este filme é feito com fotografias minhas, imagens que gostei e excertos de filmes que me marcaram nas diferentes etapas da minha vida. Apresentei também a estrutura do meu portfólio.
Na aula da tarde, técnicas expressivas, fizemos exercícios de dinâmicas de grupo. Foi sem dúvida excepcional. Conversei com colegas com os quais ainda não tinha conversado, já que a dinâmica incidia muito sobre a confiança. Penso que estas dinâmicas podem ser bastante úteis no meu serviço, uma vez que, também nós não nos conhecemos.
Estas dinâmicas, podem ser úteis em grupos que necessitem de adquirir confiança entre os membros, assim como, permite uma maior auto-confiança do indivíduo. Promove o trabalho em equipa e estimula a entreajuda.
Cada vez mais me sinto motivado para aprender mais sobre estas técnicas, para poder executá-las não só nos profissionais do meu serviço, assim como, nos nossos doentes.
Há hora do pequeno-almoço, tive a oportunidade de trocar algumas impressões sobre o portfólio, sobre o meu e dos outros. O meu ficou parado por uns dias, uma vez que estou a elaborar normas e um trabalho de pesquisa sobre as doenças psiquiátricas mais comuns, uma vez que estou a abrir o Serviço de Psiquiatria no Hospital Garcia de Orta. Talvez o portfólio não esteja mesmo parado, uma vez que estou a trabalhar para compreender melhor as patologias do doente psiquiátrico. Esta mudança não está a ser fácil. Primeiro, as despedidas do Serviço de Pneumologia. Pessoas que muito gosto e com quem partilhei espaços e tempos de vida, vão deixar de estar em convívio diário comigo. Lá estou eu a fazer analogias entre as despedidas e a morte. Segundo, por entrar num novo serviço que me pode oferecer novas oportunidades, como diz Francis Bacon “ O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”. A ver vamos, mas começo a claudicar, devido a algum cansaço acumulado. Espero recuperar as energias, pois o mês de Julho parece ser intenso e ainda tenho muito que pesquisar e escrever para o portfólio.
Sinto-me em falta para com as colegas que partilharam comigo as histórias de vida. O primeiro semestre da Pós Graduação está a terminar, o portfólio está por acabar e o trabalho nos meus dois hospitais mantém-se, pelo que será necessário fazer opções, mesmo que me apeteça muito estar em todo lado, é humanamente impossível. Resolvi não ir à aula da manhã.
Fui então, depois de um sono reparador depois de uma saída de vela, à aula da tarde. Depois de efectuarmos o ritual das mesas e cadeiras e do aquecimento, a aula de técnicas expressivas hoje debruçou-se sobre pintura, comunicação expressiva de emoções através do desenho. A temática do desenho era simples, desenhar sobre um sonho recorrente na nossa vida. Se a temática era simples, a tarefa pareceu-me mais complicada, pois escolher de entre muitos sonhos que me incomodaram, ou que realmente me fizeram feliz, não é fácil.
Resolvi desenhar, sobre um sonho que tive várias vezes, quando era adolescente. Chamo-lhe, o “pânico das portas”. O medo de chegar atrasado ao um teste na escola, provoca sonhos que definitivamente nos incomodam. A ansiedade e a insegurança instala-se quando queremos bater a todas as portas e nunca encontramos, a porta certa, para cumprir as nossas tarefas.
Quantas vezes na vida também não sentimos estas angústias por não sabermos a que porta bater para seguirmos em frente, ou, quantas vezes não nos depararmos com várias alternativas e sentimo-nos indecisos sobre o caminho a seguir.
A tarefa seguinte foi explicarmos os nossos desenhos, mais uma vez fui o primeiro a fazê-lo, afinal é sempre necessário alguém para quebrar o gelo, para se continuar a aula. Foi extremamente divertido, embora, a brincar se fale de coisas sérias.
Só tenho pena destas aulas estarem a terminar. Além de serem aliciantes, servem também para nos mostrar o potencial terapêutico destas técnicas. Para mim, pelo menos, sinto que é terapêutico, pois sinto-me mais relaxado, mais confiante e no grupo encontro elos mais fortes, dada a partilha que fazemos nestas aulas.
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sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Dias de uma P.G. VI

A unidade curricular de hoje é relação de ajuda/ Processo de aconselhamento. Hoje a aula foi um revisitar dos conteúdos dados. Foi como arrumar as coisas, etapas, papéis e conceitos ficaram na minha perspectiva bastante melhor esclarecidos. Hoje é a última aula com o Dr. João Geraldes, penso que estas aulas foram decisivamente positivas, pois é dado uma perspectiva diferente da relação profissional/doente de alguém externo à enfermagem. Muitas coisas foram cimentadas hoje e decisivamente, na minha perspectiva, poder-se-á fazer a relação de processo de aconselhamento/ Aliança terapêutica e relação de ajuda. Faz sentido agora depois de ler o livro “Processo de Aconselhamento”, reflectir sobre as nossas práticas à luz do que é o processo de aconselhamento.
Hoje o dia de aulas foi completo. Ás 8 horas e 30 minutos começou o módulo Narrativas de Vida. Esta aula foi como um reviver de sentimentos da aula passada em que nos contámos ao grupo. A grande diferença é que desta vez reflectimos sobre as nossas experiências e partilhamos o que sentimos. Muitas vezes somos confrontados com situações que nos incomodam sem saber bem porquê. Estes momentos de partilha de experiências serve também para pensarmos que não somos os únicos a sentir o que sentimos. Foi basicamente isto que se passou, há primeira vista parece pouco, mas se analisarmos com mais atenção o que se passou veremos que muita coisa foi apreendida e muita coisa foi reflectida.
À tarde, iniciámos um novo módulo sobre Técnicas Expressivas. Sinceramente tinha algumas fantasias sobre este módulo. A primeira aula correspondeu totalmente a estas fantasias, digo até que superou, uma vez que vi as potencialidades terapêuticas da técnica abordada. Falou-se de escrita criativa, e elaborámos um texto sobre a pós-graduação. Em primeiro lugar não sabia o que escrever, mas ocorreu-me que seria criativo explicar às minhas filhas o que o pai andaria a aprender na escola, uma vez que também o pai lhes pergunta o que elas andam a aprender na escola.
De seguida analisámos os textos de alguns colegas e o meu texto. Somos sem dúvida diferentes uns dos outros, pois aquilo que nos move é diferente, os nossos interesses são, definitivamente, diferentes, apesar de todos nós queremos concluir com aproveitamento esta pós graduação. Foi sem dúvida aliciante. Fiz algumas pontes nesta técnica com o processo de aconselhamento e sem dúvida com as narrativas de vida. Como se costuma dizer na gíria futebolística fiquei adepto deste módulo e desta técnica em particular.
Hoje o dia de aulas foi completo. Ás 8 horas e 30 minutos começou o módulo Narrativas de Vida. Esta aula foi como um reviver de sentimentos da aula passada em que nos contámos ao grupo. A grande diferença é que desta vez reflectimos sobre as nossas experiências e partilhamos o que sentimos. Muitas vezes somos confrontados com situações que nos incomodam sem saber bem porquê. Estes momentos de partilha de experiências serve também para pensarmos que não somos os únicos a sentir o que sentimos. Foi basicamente isto que se passou, há primeira vista parece pouco, mas se analisarmos com mais atenção o que se passou veremos que muita coisa foi apreendida e muita coisa foi reflectida.
À tarde, iniciámos um novo módulo sobre Técnicas Expressivas. Sinceramente tinha algumas fantasias sobre este módulo. A primeira aula correspondeu totalmente a estas fantasias, digo até que superou, uma vez que vi as potencialidades terapêuticas da técnica abordada. Falou-se de escrita criativa, e elaborámos um texto sobre a pós-graduação. Em primeiro lugar não sabia o que escrever, mas ocorreu-me que seria criativo explicar às minhas filhas o que o pai andaria a aprender na escola, uma vez que também o pai lhes pergunta o que elas andam a aprender na escola.
De seguida analisámos os textos de alguns colegas e o meu texto. Somos sem dúvida diferentes uns dos outros, pois aquilo que nos move é diferente, os nossos interesses são, definitivamente, diferentes, apesar de todos nós queremos concluir com aproveitamento esta pós graduação. Foi sem dúvida aliciante. Fiz algumas pontes nesta técnica com o processo de aconselhamento e sem dúvida com as narrativas de vida. Como se costuma dizer na gíria futebolística fiquei adepto deste módulo e desta técnica em particular.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2007
strike zone
Mais um filme de Cameron Duncan sobre a sua história de vida... Mais um relato impressionante. A ver... com muita atenção.
Dias de Aulas de uma P.G. V

Era então hoje o dia da narração das histórias de vida. O grupo tinha sido estabelecido na aula anterior, consoante as experiências em outras situações pedagógicas semelhantes. O meu grupo é constituído por mim e mais três colegas mulheres.
Fui o primeiro a narrar a minha história de vida. Apesar de estar habituado a fazê-lo, não deixa de ser sempre uma nova descoberta e um novo encontro comigo, com o meu passado, com o meu vivido. Aspectos positivos que são exprimidos com sorrisos, e aspectos com carga negativa contados com mais emoção. Falei ininterruptamente durante cerca de 28 minutos. O sentimento de partilha é sem dúvida interessante, uma vez que estava-me a contar perante três pessoas, que apesar de colegas, penso ser a primeira vez que estava a falar com elas. A segunda colega falou com emoção, era a primeira vez que teve “coragem” para contar uma experiência traumática, senti que se encontrou com os seus “fantasmas”, senti-a inicialmente perdida, insegura e vulnerável. Com o passar do tempo o seu discurso passou a ser mais confiante, embora não disfarçasse a emoção.
A terceira colega a falar, pareceu-me uma mulher mais vivida e com os seus “fantasmas” dominados, era sem duvida uma história sofrida, cheia de desencontros e carregada de sofrimento. Pareceu-me alguém que já reflectiu este período da sua vida e finalmente encontrou o seu caminho.
A última colega a narrar a sua história de vida, prometeu que não falaria muito, uma vez que se sentia incapaz de se contar. Realmente teve bastante dificuldade, mas sentiu que aquele momento de partilha de experiências tinha sido genuíno e tentou partilhar com o grupo.
Ao analisar as histórias de vida, há sem duvida uma preponderância de movimentos negativos. O sofrimento é sem duvida o que é mais difícil de relembrar, embora porém, talvez seja aquele que mais necessidade teremos de partilhar. Ao contarmos momentos traumáticos, enfrentamos os nossos medos e inseguranças. Acredito que quando as contamos repetidamente estes nossos “fantasmas” passam a ter um peso bastante menor na nossa vida, conseguindo cada um de nós seguir com uma vida mais saudável.
Depois deste momento, tivemos reunião de supervisão de cuidados. A reunião com o professor, teve como objectivo, analisar o caminho percorrido na elaboração dos portfólios. Sinto que apesar de tudo, estou a desenvolver um trabalho que vai de encontro aquilo que se pretende, alem disso estou a sentir prazer em fazê-lo e estou sem duvida a aprender coisas sobre saúde mental, que para mim eram completamente desconhecidas.
Fui o primeiro a narrar a minha história de vida. Apesar de estar habituado a fazê-lo, não deixa de ser sempre uma nova descoberta e um novo encontro comigo, com o meu passado, com o meu vivido. Aspectos positivos que são exprimidos com sorrisos, e aspectos com carga negativa contados com mais emoção. Falei ininterruptamente durante cerca de 28 minutos. O sentimento de partilha é sem dúvida interessante, uma vez que estava-me a contar perante três pessoas, que apesar de colegas, penso ser a primeira vez que estava a falar com elas. A segunda colega falou com emoção, era a primeira vez que teve “coragem” para contar uma experiência traumática, senti que se encontrou com os seus “fantasmas”, senti-a inicialmente perdida, insegura e vulnerável. Com o passar do tempo o seu discurso passou a ser mais confiante, embora não disfarçasse a emoção.
A terceira colega a falar, pareceu-me uma mulher mais vivida e com os seus “fantasmas” dominados, era sem duvida uma história sofrida, cheia de desencontros e carregada de sofrimento. Pareceu-me alguém que já reflectiu este período da sua vida e finalmente encontrou o seu caminho.
A última colega a narrar a sua história de vida, prometeu que não falaria muito, uma vez que se sentia incapaz de se contar. Realmente teve bastante dificuldade, mas sentiu que aquele momento de partilha de experiências tinha sido genuíno e tentou partilhar com o grupo.
Ao analisar as histórias de vida, há sem duvida uma preponderância de movimentos negativos. O sofrimento é sem duvida o que é mais difícil de relembrar, embora porém, talvez seja aquele que mais necessidade teremos de partilhar. Ao contarmos momentos traumáticos, enfrentamos os nossos medos e inseguranças. Acredito que quando as contamos repetidamente estes nossos “fantasmas” passam a ter um peso bastante menor na nossa vida, conseguindo cada um de nós seguir com uma vida mais saudável.
Depois deste momento, tivemos reunião de supervisão de cuidados. A reunião com o professor, teve como objectivo, analisar o caminho percorrido na elaboração dos portfólios. Sinto que apesar de tudo, estou a desenvolver um trabalho que vai de encontro aquilo que se pretende, alem disso estou a sentir prazer em fazê-lo e estou sem duvida a aprender coisas sobre saúde mental, que para mim eram completamente desconhecidas.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2007
DFK 6498
Este filme foi realizado por Cameron Duncan, jovem realizador da Nova Zelandia a quem foi diagnosticado um osteosarcoma do joelho esquerdo. Este relato é deveras impressionante. Este jovem já faleceu, após este filme. Peter Jakson incluiu dois dos seus filmes no DVD dos senhor dos Aneis. A ver...com muita atenção.
sábado, 27 de outubro de 2007
Dias de Aulas de uma P.G. IV

Hoje é um dia em cheio, temos todo o dia aulas. Sinto-me um pouco cansado, dezasseis horas de trabalho todos os dias têm-me feito vacilar um pouco, e toldam-me um pouco o raciocínio. Introduzimos o estágio na P.G.
Foi definido o que era pretendido na construção do portefólio. Fiquei um pouco desiludido, pois a ideia que já tinha em mente para construir o meu portefólio já não é exequível, uma vez que tem de ser construído em suporte informático. Mas como tudo na vida, construir, reconstruir faz parte dos processos de formação e de crescimento pessoal, terei que me debruçar mais tarde sob a forma como irei apresentar a minha aprendizagem.
Foi mais tarde introduzido mais um módulo de Saúde Mental e Comunitária. Foi uma aula de exploração. Primeiro tentámos apontar a característica mais importante em nós. Curioso, perseverante, dinâmico, justo, persistente, verdadeiro e exigente, foram algumas das características que definiam o maior número de estudantes. Estas características, revejo-as nas capacidades e nas virtudes que o enfermeiro deve ter, eram estas, as características atribuídas à turma.
Há tarde, mais uma aula de ética. Desta vez estávamos a PG de saúde mental, e a PG de Médico-cirúrgica Urgência/Emergência. Falou-se de autonomia vs vulnerabilidade. De quanto mais autónomo o doente se encontra, menos vulnerável se sente e vice-versa. Senti que, cada vez mais estas questões fazem mais sentido, uma vez que perfeitamente se enquadram na minha experiência.
Vem de encontro aquilo que defendo desde sempre, que o paternalismo/maternalismo, que por vezes se quer fazer passar como bons cuidados de enfermagem, não passam de uma maneira de manter a vulnerabilidade do doente e consequentemente a sua dependência. Promover a autonomia é sem dúvida, o objectivo final dos cuidados de enfermagem.
A cada dia que passa sinto-me mais motivado. Iniciou-se hoje mais um módulo da P.G., Narrativas de Vida. Há alguns anos apliquei esta metodologia de formação e realmente, é um domínio de bastante interesse e que se enquadra naquilo que realmente penso sobre formação. Não só em termos formativos é benéfico, como também, em termos da nossa saúde mental adquire uma importância fundamental. Contarmo-nos e escrevermo-nos é um exercício, que encerra em si, uma construção interior para quem o consegue fazer. Sem duvida, que um povo só cresce quando tem consciência da sua própria história. Não se refugia em medos e preconceitos, mas a enfrenta, a encara e a enaltece, nos seus domínios positivos e negativos. Aproveita os positivos para continuar, analisa os negativos para melhorar. Penso que as narrativas de vida também contêm este processo de crescimento pessoal.
A aula foi introdutória, mas já se vislumbrou por que caminhos, pode enveredar. Falámos de narrativas de vida e de “empowerment”, onde na nossa história de vida tivemos perante a situação de dar poder ou ter o poder de decidir sobre a nossa vida.
A hora de almoço mais uma vez foi um momento de conhecimento dos colegas, das experiências, das expectativas. È sempre um momento formativo, estas conversas desprovidas de qualquer outro objectivo que não de conhecer e dar a conhecer. Fala-se efectivamente de nós, dos outros e de enfermagem. Analisar estes conteúdos à posteriori era motivo para algumas páginas de análise.
À tarde mais uma aula de relação de ajuda e de processo de aconselhamento. Falou-se de transferência e contratransferência e identificação projectiva. À partida, pode dar a ideia que nada se avançou, pois já na última aula, tínhamos abordado esta temática. O que me parece é que agora estes temas estão muito melhor percebidos, pois foram utilizados exemplos em contexto de trabalho. Existe na turma um melhor aproveitamento destas aulas. A mim, sempre me fez confusão a educação bancária, prefiro sem duvida a educação problematizadora. Parece-me que é por este caminho que estamos a ir, o que me agrada verdadeiramente.
Ouvi nesta pós graduação no início, que ela é, aquilo que nós quisermos que ela seja. Até agora foi essa a linha que me guiou, a partir de agora, devido a sobrecarga do horário de trabalho, irá ser aquilo que o tempo deixar ser. Não que não irei pensar nas problemáticas analisadas, mas será que irei ter tempo de as escrever?
Foi definido o que era pretendido na construção do portefólio. Fiquei um pouco desiludido, pois a ideia que já tinha em mente para construir o meu portefólio já não é exequível, uma vez que tem de ser construído em suporte informático. Mas como tudo na vida, construir, reconstruir faz parte dos processos de formação e de crescimento pessoal, terei que me debruçar mais tarde sob a forma como irei apresentar a minha aprendizagem.
Foi mais tarde introduzido mais um módulo de Saúde Mental e Comunitária. Foi uma aula de exploração. Primeiro tentámos apontar a característica mais importante em nós. Curioso, perseverante, dinâmico, justo, persistente, verdadeiro e exigente, foram algumas das características que definiam o maior número de estudantes. Estas características, revejo-as nas capacidades e nas virtudes que o enfermeiro deve ter, eram estas, as características atribuídas à turma.
Há tarde, mais uma aula de ética. Desta vez estávamos a PG de saúde mental, e a PG de Médico-cirúrgica Urgência/Emergência. Falou-se de autonomia vs vulnerabilidade. De quanto mais autónomo o doente se encontra, menos vulnerável se sente e vice-versa. Senti que, cada vez mais estas questões fazem mais sentido, uma vez que perfeitamente se enquadram na minha experiência.
Vem de encontro aquilo que defendo desde sempre, que o paternalismo/maternalismo, que por vezes se quer fazer passar como bons cuidados de enfermagem, não passam de uma maneira de manter a vulnerabilidade do doente e consequentemente a sua dependência. Promover a autonomia é sem dúvida, o objectivo final dos cuidados de enfermagem.
A cada dia que passa sinto-me mais motivado. Iniciou-se hoje mais um módulo da P.G., Narrativas de Vida. Há alguns anos apliquei esta metodologia de formação e realmente, é um domínio de bastante interesse e que se enquadra naquilo que realmente penso sobre formação. Não só em termos formativos é benéfico, como também, em termos da nossa saúde mental adquire uma importância fundamental. Contarmo-nos e escrevermo-nos é um exercício, que encerra em si, uma construção interior para quem o consegue fazer. Sem duvida, que um povo só cresce quando tem consciência da sua própria história. Não se refugia em medos e preconceitos, mas a enfrenta, a encara e a enaltece, nos seus domínios positivos e negativos. Aproveita os positivos para continuar, analisa os negativos para melhorar. Penso que as narrativas de vida também contêm este processo de crescimento pessoal.
A aula foi introdutória, mas já se vislumbrou por que caminhos, pode enveredar. Falámos de narrativas de vida e de “empowerment”, onde na nossa história de vida tivemos perante a situação de dar poder ou ter o poder de decidir sobre a nossa vida.
A hora de almoço mais uma vez foi um momento de conhecimento dos colegas, das experiências, das expectativas. È sempre um momento formativo, estas conversas desprovidas de qualquer outro objectivo que não de conhecer e dar a conhecer. Fala-se efectivamente de nós, dos outros e de enfermagem. Analisar estes conteúdos à posteriori era motivo para algumas páginas de análise.
À tarde mais uma aula de relação de ajuda e de processo de aconselhamento. Falou-se de transferência e contratransferência e identificação projectiva. À partida, pode dar a ideia que nada se avançou, pois já na última aula, tínhamos abordado esta temática. O que me parece é que agora estes temas estão muito melhor percebidos, pois foram utilizados exemplos em contexto de trabalho. Existe na turma um melhor aproveitamento destas aulas. A mim, sempre me fez confusão a educação bancária, prefiro sem duvida a educação problematizadora. Parece-me que é por este caminho que estamos a ir, o que me agrada verdadeiramente.
Ouvi nesta pós graduação no início, que ela é, aquilo que nós quisermos que ela seja. Até agora foi essa a linha que me guiou, a partir de agora, devido a sobrecarga do horário de trabalho, irá ser aquilo que o tempo deixar ser. Não que não irei pensar nas problemáticas analisadas, mas será que irei ter tempo de as escrever?
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quarta-feira, 26 de setembro de 2007
Os "fantasmas" formadores
História de vida como método formativo
O coração palpitava, as mãos suavam, as pernas tremiam. Sentia um calor a percorrer-me todo o corpo. Hesitei. Dei um passo atrás devido ao peso das dúvidas, cheio de receios da exposição pública, mas principalmente pelos fantasmas que me rodeavam. Inspirei fundo, abri a porta e avancei…
Tinha sido convidado por uma escola de enfermagem para leccionar uma aula. Era objectivo desta aula, dar a conhecer aos estudantes de enfermagem, uma imagem do quanto pode ser importante o papel do enfermeiro no acompanhamento de um casal infértil.
O grande problema é que esta aula se baseava na minha história de vida. Aceitei. Senti que poderia alertar os futuros enfermeiros, para os desequilíbrios, para as necessidades e para as angústias que as pessoas vivenciam quando sujeitas a uma situação de infertilidade. Inicialmente pensei, que embora não tivesse todo o suporte formativo para leccionar aquela aula, tinha a certeza de que esta não seria desprovida de sentido, uma vez que tinha vivenciado esta experiência quer como enfermeiro quer como parte integrante de um casal infértil.
Estava perante uma audiência de trinta pessoas que não conhecia, a expor um acontecimento traumático, que condicionou todo o resto da minha vida.
O aceitar este desafio, decorreu da necessidade de querer contribuir, de algum modo, para minimizar um problema que afecta tantos casais, sensibilizando os futuros enfermeiros sobre esta problemática, muitas vezes abordada apenas pela classe médica. È de salientar que neste domínio em particular, cada vez mais o papel do enfermeiro é crucial: apoiando, escutando, informando, … enfim, “cuidando do casal”. Demétrio (2005; p. 21) refere que, “Aquele momento em que sentimos o desejo, de narrarmos a nossa própria história é o sinal de uma nova etapa na nossa maturidade”.
Ao iniciar a aula, os estudantes de enfermagem sabiam que eu iria falar sobre métodos de reprodução medicamente assistidos. Principalmente sobre a área de actuação de enfermagem em cada uma das técnicas de reprodução assistida. Sabiam também, que iriam ser abordados diagnósticos e intervenções de enfermagem utilizando a CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem), tendo como exemplo um hipotético casal.
Porém, notei que, após esta hora de aula, apesar do assunto lhes ter parecido de bastante interesse, os estudantes já apresentavam sinais de cansaço e um pouco perdidos em relação às técnicas, diagnósticos e intervenções.
Foi então que adoptei outra estratégia. Comecei a contar a história de um casal infértil, com muita vontade em resolver este problema.
Com esta metodologia detectei muito mais atenção por parte dos estudantes. Penso que retiveram muito mais a temática da aula, tornando-se mais intervenientes, identificando facilmente, onde o enfermeiro pode e deve intervir. Mas o que os estudantes não sabiam inicialmente, é que aquela história era inteiramente verdadeira e aconteceu com o formador que estava perante eles.
Com esta experiência formativa, apercebi-me que utilizando a metodologia autobiográfica criava mais “desequilíbrios” ou momentos reflexivos nos estudantes. Por um lado, despertei o interesse para que sentissem a necessidade de aprender mais, numa perspectiva de autoformação. Por outro lado, para que eles se colocassem numa perspectiva de análise de casos que conheciam, desmistificando pensamentos pré-concebidos e muitas vezes socialmente estereotipados.
Tomando consciência que este tipo de situações existe e pode acontecer a qualquer casal, inclusive a cada um deles, pode prepará-los melhor no desempenho da sua actuação como enfermeiros, pois como refere Josso (2002, p. 8), “ (...) a consciência nasce quando interpretamos um objecto com o nosso sentido autobiográfico, a nossa identidade e a nossa capacidade de anteciparmos o que há de vir”. Também Canário (1999, p. 116) refere que, “ (…) a formação é, assim, feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de vida”.
De igual forma para mim, como formador foi benéfico, já que falar de um acontecimento traumático e de um processo doloroso não foi fácil, por isso, encarei este método autobiográfico como método terapêutico.
Ao contar a minha história de vida de uma forma continuada, distancio-me dela, mas não tanto para não falar com paixão de algo que me é próximo, pois como entende Demétrio (2005, p. 10) “A paixão pelos aspectos do passado, que ganham realce, transforma-se em paixão pela vida futura”.
Por outro lado, “o contar repetidamente”, permite-me enfrentar os meus “fantasmas” consequentemente uma “banalização” deste período crítico, entrando num processo de auto-conhecimento, de auto-formação, de auto-avaliação e de auto-orientação que enriquecerá os três domínios do saber. Além disso, vou também fazendo a minha catarse enquanto me revelo aos estudantes.
Ao falar sobre mim, consigo apesar de tudo, exercer uma consciência critica sobre a situação da infertilidade e ao mesmo tempo reflectir com os estudantes sobre esta temática. Uma vez que a minha reflexão leva-me a questionar a relevância da problemática da infertilidade e sobre o meu posicionamento enquanto pessoa e enquanto profissional. Analisar e reflectir sobre estas premissas são o que caracteriza uma reflexão critica. Permite-me integrar e sobretudo pensar as memórias, a capacidade de desejar, e a capacidade de tolerar a dor um projecto futuro.
Pergunto-me a mim mesmo, enquanto enfermeiro, de que modo poderia atenuar o grande sofrimento dos casais, que enfrentam um problema, para o qual não estavam minimamente preparados. Penso que, com a minha história de vida, também influenciada por uma situação de infertilidade, adquiri competências para os ajudar a encarar de uma forma positiva o problema. Gostaria também que, a minha presença nestas aulas, ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise.
Quantos de nós, profissionais de saúde, não temos “fantasmas” que nos assolam, quantos de nós não temos problemas de saúde, ou simplesmente estivemos internados num qualquer hospital. A nossa vivência pode ser útil para despertar consciências sobre a nossa actuação, sobre o nosso verdadeiro papel. Falar ou escrever sobre aquilo que nos fizeram, esperávamos que nos fizessem ou simplesmente não nos fizeram, pode adquirir outra dimensão. Em resumo, despertar consciências, ou simplesmente como dizia um professor “ver com outros óculos”, um fenómeno que nos ocorreu. Contar pode ser importante para cada um de nós, como ouvir pode ser importante para quem nos escuta.
Considero que a abordagem desta temática foi importante, pois permitiu-me a mim como pessoa e como profissional, dar o meu pequeno contributo na formação destes futuros profissionais. Permitiu-me também enfrentar os meus “fantasmas”, que consegui ultrapassar no momento em que abri a porta e avancei e no momento em que escrevo estas linhas. Apesar de tudo, pretendo continuar, pois como diz Saint-Exupéry “ Não podes continuar estático num mundo que se transforma à tua volta”.
Esta minha experiência formativa permitiu reflectir sobre duas vertentes problemáticas da autobiografia: a autobiografia como método formativo e a autobiografia como método terapêutico.
Se como refere Canário (1999, p. 109), “a experiência de quem aprende torna-se o ponto de chegada dos processos de aprendizagem”, também não me parece desprovido de verdade que a experiência de quem “ensina” torna-se o ponto de partida para os processos de aprendizagem.
Quando falamos neste assunto da formação de enfermeiros podemos e devemos enquadrar na formação de adultos. Nessa perspectiva, a formação dos enfermeiros incide bastante na importância da experiência, pois esta está intimamente ligada à prática. Consequentemente ligada à vida do enfermeiro. Já Jarvis (1992, p. 174) localiza a formação dos enfermeiros “ (…) na interface da autobiografia e do meio sociocultural em que as pessoas vivem”.
Ao terminar interiorizo Nóvoa (1988, p. 115) cit. Remy Hees (1985), “Formar-se não é instruir-se, é antes de mais reflectir, pensar numa experiência vivida, (…), é aprender a construir uma distância face à experiência vivida, é aprender a contá-la através de palavras, é ser capaz de conceptualizar”
COMENTÀRIO:
Esta experiência que me aconteceu, foi realmente algo que me fez despertar com mais intensidade a problemática das histórias de vida e como elas podem ser vistas no contexto formativo pessoal, como também dos que nos rodeiam.
O artigo inicia sobre a explicação do motivo do convite para dar aulas na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, o que já me acontece há cerca de 4 anos. A temática é sobre técnicas de reprodução assistida.
O que detectei é que se procurasse explicar as técnicas de reprodução assistida, e eu próprio identificasse o papel da enfermagem no casal infértil, os estudantes tinham alguma dificuldade em manterem-se concentrados e intervenientes na aula. Os estudantes assumiam assim um papel passivo, não participando na aula, assumindo somente um papel de fiéis depositários, sem diálogo, tal como Freire descrevia a educação bancária.
A estratégia adoptada foi diferente, então utilizei a minha própria história de vida para explicar algumas técnicas e o papel do enfermeiro. Aí notou-se diferenças na participação e na interactividade dos estudantes. Como é referido “ (…), ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise”. Há neste artigo uma intenção de educar, como refere Nóvoa “ educar é preparar no presente para agir no futuro”. Mas também de reflectir sobre uma experiência formativa, na qual se deu primazia à experiência, Alarcão refere também ela, que a experiência, para ser formativa tem de ser conceptualizada e reflectida.
Assim este artigo, funciona um pouco em duas visões, uma como a experiência como método formativo, a outra visão mais pessoal será como método terapêutico do próprio formador, por isso no título a palavra “fantasmas”, o formador como que aproveitou a experiência formativa para que, como define Canário, finalizar um processo de “autoconstrução”, tirou, reelaborou e integrou as experiências vividas.
O artigo destaca também a importância de todos nós enfermeiros, podermos utilizar as nossas experiências pessoais para as transmitirmos aos alunos de enfermagem, para com eles reflectirmos sobre a prática, pois como diz Alarcão a “globalidade da pessoa constrói-se na variedade integrada das experiências vividas e assimiladas” em “permanente atitude de observação e reflexão” que deve ser individual e dos outros também, para todos podermos crescer, já que “a autoformação permanente emerge como sinónimo de um processo de educação permanente (…) que atravessa todos os tempos e todos os lugares”, como refere Canário.
O coração palpitava, as mãos suavam, as pernas tremiam. Sentia um calor a percorrer-me todo o corpo. Hesitei. Dei um passo atrás devido ao peso das dúvidas, cheio de receios da exposição pública, mas principalmente pelos fantasmas que me rodeavam. Inspirei fundo, abri a porta e avancei…
Tinha sido convidado por uma escola de enfermagem para leccionar uma aula. Era objectivo desta aula, dar a conhecer aos estudantes de enfermagem, uma imagem do quanto pode ser importante o papel do enfermeiro no acompanhamento de um casal infértil.
O grande problema é que esta aula se baseava na minha história de vida. Aceitei. Senti que poderia alertar os futuros enfermeiros, para os desequilíbrios, para as necessidades e para as angústias que as pessoas vivenciam quando sujeitas a uma situação de infertilidade. Inicialmente pensei, que embora não tivesse todo o suporte formativo para leccionar aquela aula, tinha a certeza de que esta não seria desprovida de sentido, uma vez que tinha vivenciado esta experiência quer como enfermeiro quer como parte integrante de um casal infértil.
Estava perante uma audiência de trinta pessoas que não conhecia, a expor um acontecimento traumático, que condicionou todo o resto da minha vida.
O aceitar este desafio, decorreu da necessidade de querer contribuir, de algum modo, para minimizar um problema que afecta tantos casais, sensibilizando os futuros enfermeiros sobre esta problemática, muitas vezes abordada apenas pela classe médica. È de salientar que neste domínio em particular, cada vez mais o papel do enfermeiro é crucial: apoiando, escutando, informando, … enfim, “cuidando do casal”. Demétrio (2005; p. 21) refere que, “Aquele momento em que sentimos o desejo, de narrarmos a nossa própria história é o sinal de uma nova etapa na nossa maturidade”.
Ao iniciar a aula, os estudantes de enfermagem sabiam que eu iria falar sobre métodos de reprodução medicamente assistidos. Principalmente sobre a área de actuação de enfermagem em cada uma das técnicas de reprodução assistida. Sabiam também, que iriam ser abordados diagnósticos e intervenções de enfermagem utilizando a CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem), tendo como exemplo um hipotético casal.
Porém, notei que, após esta hora de aula, apesar do assunto lhes ter parecido de bastante interesse, os estudantes já apresentavam sinais de cansaço e um pouco perdidos em relação às técnicas, diagnósticos e intervenções.
Foi então que adoptei outra estratégia. Comecei a contar a história de um casal infértil, com muita vontade em resolver este problema.
Com esta metodologia detectei muito mais atenção por parte dos estudantes. Penso que retiveram muito mais a temática da aula, tornando-se mais intervenientes, identificando facilmente, onde o enfermeiro pode e deve intervir. Mas o que os estudantes não sabiam inicialmente, é que aquela história era inteiramente verdadeira e aconteceu com o formador que estava perante eles.
Com esta experiência formativa, apercebi-me que utilizando a metodologia autobiográfica criava mais “desequilíbrios” ou momentos reflexivos nos estudantes. Por um lado, despertei o interesse para que sentissem a necessidade de aprender mais, numa perspectiva de autoformação. Por outro lado, para que eles se colocassem numa perspectiva de análise de casos que conheciam, desmistificando pensamentos pré-concebidos e muitas vezes socialmente estereotipados.
Tomando consciência que este tipo de situações existe e pode acontecer a qualquer casal, inclusive a cada um deles, pode prepará-los melhor no desempenho da sua actuação como enfermeiros, pois como refere Josso (2002, p. 8), “ (...) a consciência nasce quando interpretamos um objecto com o nosso sentido autobiográfico, a nossa identidade e a nossa capacidade de anteciparmos o que há de vir”. Também Canário (1999, p. 116) refere que, “ (…) a formação é, assim, feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de vida”.
De igual forma para mim, como formador foi benéfico, já que falar de um acontecimento traumático e de um processo doloroso não foi fácil, por isso, encarei este método autobiográfico como método terapêutico.
Ao contar a minha história de vida de uma forma continuada, distancio-me dela, mas não tanto para não falar com paixão de algo que me é próximo, pois como entende Demétrio (2005, p. 10) “A paixão pelos aspectos do passado, que ganham realce, transforma-se em paixão pela vida futura”.
Por outro lado, “o contar repetidamente”, permite-me enfrentar os meus “fantasmas” consequentemente uma “banalização” deste período crítico, entrando num processo de auto-conhecimento, de auto-formação, de auto-avaliação e de auto-orientação que enriquecerá os três domínios do saber. Além disso, vou também fazendo a minha catarse enquanto me revelo aos estudantes.
Ao falar sobre mim, consigo apesar de tudo, exercer uma consciência critica sobre a situação da infertilidade e ao mesmo tempo reflectir com os estudantes sobre esta temática. Uma vez que a minha reflexão leva-me a questionar a relevância da problemática da infertilidade e sobre o meu posicionamento enquanto pessoa e enquanto profissional. Analisar e reflectir sobre estas premissas são o que caracteriza uma reflexão critica. Permite-me integrar e sobretudo pensar as memórias, a capacidade de desejar, e a capacidade de tolerar a dor um projecto futuro.
Pergunto-me a mim mesmo, enquanto enfermeiro, de que modo poderia atenuar o grande sofrimento dos casais, que enfrentam um problema, para o qual não estavam minimamente preparados. Penso que, com a minha história de vida, também influenciada por uma situação de infertilidade, adquiri competências para os ajudar a encarar de uma forma positiva o problema. Gostaria também que, a minha presença nestas aulas, ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise.
Quantos de nós, profissionais de saúde, não temos “fantasmas” que nos assolam, quantos de nós não temos problemas de saúde, ou simplesmente estivemos internados num qualquer hospital. A nossa vivência pode ser útil para despertar consciências sobre a nossa actuação, sobre o nosso verdadeiro papel. Falar ou escrever sobre aquilo que nos fizeram, esperávamos que nos fizessem ou simplesmente não nos fizeram, pode adquirir outra dimensão. Em resumo, despertar consciências, ou simplesmente como dizia um professor “ver com outros óculos”, um fenómeno que nos ocorreu. Contar pode ser importante para cada um de nós, como ouvir pode ser importante para quem nos escuta.
Considero que a abordagem desta temática foi importante, pois permitiu-me a mim como pessoa e como profissional, dar o meu pequeno contributo na formação destes futuros profissionais. Permitiu-me também enfrentar os meus “fantasmas”, que consegui ultrapassar no momento em que abri a porta e avancei e no momento em que escrevo estas linhas. Apesar de tudo, pretendo continuar, pois como diz Saint-Exupéry “ Não podes continuar estático num mundo que se transforma à tua volta”.
Esta minha experiência formativa permitiu reflectir sobre duas vertentes problemáticas da autobiografia: a autobiografia como método formativo e a autobiografia como método terapêutico.
Se como refere Canário (1999, p. 109), “a experiência de quem aprende torna-se o ponto de chegada dos processos de aprendizagem”, também não me parece desprovido de verdade que a experiência de quem “ensina” torna-se o ponto de partida para os processos de aprendizagem.
Quando falamos neste assunto da formação de enfermeiros podemos e devemos enquadrar na formação de adultos. Nessa perspectiva, a formação dos enfermeiros incide bastante na importância da experiência, pois esta está intimamente ligada à prática. Consequentemente ligada à vida do enfermeiro. Já Jarvis (1992, p. 174) localiza a formação dos enfermeiros “ (…) na interface da autobiografia e do meio sociocultural em que as pessoas vivem”.
Ao terminar interiorizo Nóvoa (1988, p. 115) cit. Remy Hees (1985), “Formar-se não é instruir-se, é antes de mais reflectir, pensar numa experiência vivida, (…), é aprender a construir uma distância face à experiência vivida, é aprender a contá-la através de palavras, é ser capaz de conceptualizar”
COMENTÀRIO:
Esta experiência que me aconteceu, foi realmente algo que me fez despertar com mais intensidade a problemática das histórias de vida e como elas podem ser vistas no contexto formativo pessoal, como também dos que nos rodeiam.
O artigo inicia sobre a explicação do motivo do convite para dar aulas na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, o que já me acontece há cerca de 4 anos. A temática é sobre técnicas de reprodução assistida.
O que detectei é que se procurasse explicar as técnicas de reprodução assistida, e eu próprio identificasse o papel da enfermagem no casal infértil, os estudantes tinham alguma dificuldade em manterem-se concentrados e intervenientes na aula. Os estudantes assumiam assim um papel passivo, não participando na aula, assumindo somente um papel de fiéis depositários, sem diálogo, tal como Freire descrevia a educação bancária.
A estratégia adoptada foi diferente, então utilizei a minha própria história de vida para explicar algumas técnicas e o papel do enfermeiro. Aí notou-se diferenças na participação e na interactividade dos estudantes. Como é referido “ (…), ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise”. Há neste artigo uma intenção de educar, como refere Nóvoa “ educar é preparar no presente para agir no futuro”. Mas também de reflectir sobre uma experiência formativa, na qual se deu primazia à experiência, Alarcão refere também ela, que a experiência, para ser formativa tem de ser conceptualizada e reflectida.
Assim este artigo, funciona um pouco em duas visões, uma como a experiência como método formativo, a outra visão mais pessoal será como método terapêutico do próprio formador, por isso no título a palavra “fantasmas”, o formador como que aproveitou a experiência formativa para que, como define Canário, finalizar um processo de “autoconstrução”, tirou, reelaborou e integrou as experiências vividas.
O artigo destaca também a importância de todos nós enfermeiros, podermos utilizar as nossas experiências pessoais para as transmitirmos aos alunos de enfermagem, para com eles reflectirmos sobre a prática, pois como diz Alarcão a “globalidade da pessoa constrói-se na variedade integrada das experiências vividas e assimiladas” em “permanente atitude de observação e reflexão” que deve ser individual e dos outros também, para todos podermos crescer, já que “a autoformação permanente emerge como sinónimo de um processo de educação permanente (…) que atravessa todos os tempos e todos os lugares”, como refere Canário.
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terça-feira, 25 de setembro de 2007
filme - você aprende
Este filme, abaixo publicado, foi realizado por mim no contexto de um Pós Graduação em Saude Mental, é como uma autobiografia, acompanhada por um texto escrito por William Shakespeare, em versão brasileira. Este filme foi elaborado no intuído de me apresentar enquanto estudante desta Pós – Graduação, de mostrar o meu percurso de vida, contem excertos de filmes que foram significativos para mim nos vários estadíos do meu desenvolvimento. Assim como o texto é significativo para mim enquanto pessoa e profissional, pode também ele ser um guia para que se mantenha a saúde mental;
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