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sábado, 11 de julho de 2009

PONTO E VIRGULA, PARENTISES OU RETICENCIAS




Carta aberta aos meus doze Apóstolos e não só


Há momentos em que sentimos alguma necessidade de fazer balanços sobre a vida, sobre a nossa profissão, sobre uma relação, etc. Justifica-se muitas vezes que esses balanços sejam feitos com um distanciamento maior para os sentimentos não interferirem, ou então logo a seguir ao acontecimento, pois permite que esses mesmos sentimentos entrem em consideração nessa avaliação.

Hoje, considero que é o momento de reflectir sobre o que andei a fazer, principalmente desde Março ultimo e analisar o feito de uma forma geral, que gostaria de partilhar convosco.

No ano passado durante o acompanhamento de um estágio de cirurgia no Hospital dos Lusíadas, foi-me formulado um convite para colaborar com a Universidade Atlântica no que diz respeito a aulas teórico-práticas e estágio dos estudantes do 3º ano 2º semestre na área de saúde Mental e Psiquiatria. Inicialmente, senti uma certa insegurança, justificada pela minha ainda, relativa, curta experiência na área da psiquiatria. Mas fiquei definitivamente grato à professora Maria João Santos pela confiança depositada em mim e que me deixou orgulhoso.

Nunca escondi aos meus pares que a docência era um dos meus objectivos profissionais. Colaboro com a ESEL pólo MFR já há quase 8 anos e foi sempre uma experiência que me agradou e do qual retirei o maior proveito como experiência para corroborar o meu objectivo.

Quando comecei as aulas, considero que me senti inseguro, ainda por cima com uma turma numerosa de gente jovem e com as energias ao alto, próprias da idade. Nesta fase foi importante o corpo docente já especialistas em saúde mental e com mais experiência na docência que me receberam maravilhosamente destaco o Luís R. a Olga V. e a Manuela B. que conviveram e partilharam as experiências e tiveram a paciência de me encaminhar nesta arte de “ensinar”.

Senti que as coisas correram muito bem, apesar do meu papel mais de apoio nas aulas e de observador das dinâmicas em sala de aula. Sempre achei que o papel de professor, recordando Freire, deve ser mais de desequilibrador, de desafiador, de motivador dos estudantes, mais numa perspectiva de educação problematizadora do que educação bancária. Recordo que tive estas duas experiências, no curso base na Escola de Portalegre que, no início dos idos anos 90, apostavam que decorar era a palavra “mágica” e mais recentemente na escola de Setúbal em que adoptei como modelo a experiência que tive com professores que me marcaram quer no curso de complemento, quer na Pós-Graduação em Saúde Mental. Destaco as aulas desconcertantes da Prof. Lucília N. e o apoio sempre presente do Prof. Joaquim L., como na minha terra se diz, faz como vires fazer, tentei adoptar esse estilo de acompanhamento dos estudantes.

Iniciamos o estágio, que durou seis semanas. Fiquei com dois campos de estágio, IDT do Restelo e Clínica Psiquiátrica de São José no total de 12 estudantes, que tentei acompanhar o mais próximo possível. Tentei motivá-los para a Saúde Mental, quase numa perspectiva de recrutamento para a minha “causa”. Se consegui? Só o futuro o dirá, mas penso tê-los ajudado a pesquisar a reflectir a enfermagem na área da Saúde Mental. Já recordo com saudade própria do momento, aqueles com quem partilhei o tempo e com quem me preocupei durante estas seis semanas. Se acham que foram só eles que aprenderam comigo, desenganem-se. Aprendi muito com os meus doze apóstolos. Recordo a energia e simpatia da Marlene, a segurança do Tiago, as dúvidas da Vanessa, as incertezas das Anas, a perseverança das Susanas, as duvidas existenciais do André, a estabilidade da Vânia, o empenho da Cláudia, o trabalho da Maria João e a pessoa genuína que é a Rita. A todos só posso agradecer estas semanas de convívio mais próximo não deixando de salientar todos os outros que me acompanharam em sala de aula.

Mas em estágio, os méritos formativos são também partilhados pelos Orientadores, pelos quais nutro um profundo respeito. Agradeço desde já ao João M. e à Filipa do IDT, assim como ao Luís e à Irina com quem lidei de mais perto. Reconheço o papel do Sérgio a quem agradeço a amabilidade e a disponibilidade.

E pronto, foi mais uma experiência que termina aqui, por enquanto, pois a partir de Setembro irei iniciar outra luta, outro percurso que espero de novas descobertas na área da Saúde Mental e Psiquiatria, tentando tornar-me enfermeiro especialista, pois fui admitido como aluno na ESESFM. É pois outra etapa que se avizinha com bastante esforço pessoal, embora esteja garantida o meu empenho e a minha motivação.

É pois este momento um ponto e virgula do meu percurso, neste parêntesis que foi a minha experiência na docência, assumindo as reticencias para o futuro o desejo quase certo de voltar.

Concumitantemente fui co-orientador de duas estudantes da ESEL a Andreia e aRaquel que realizaram um etágio no serviço de Psiquiatria do HGO e desenvolveram um trabalho extraordinario no serviço. Sinto que afinal a enfermagem ainda tem um futuro risonho.

A todos eles só posso agradecer o me terem dado a oportunidade e o privilégio de conviver com cada um.

Muito Obrigado

Luís Godinho

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Dias de Aulas de uma P.G. III


Hoje era um dia diferente, uma vez que só teria de entrar ás 11h30m. Teria hoje a primeira aula de supervisão de cuidados. Dois grupos, 10 estudantes, 2 professores. A expectativa era alta uma vez que pouco ou nada sabíamos sobre o que se iria passar. Tinham-nos dito que era como fazer teatro, mas mais nada tinham adiantado. Começámos então a construir o nosso átomo social, que consta em colocarmos os vários actores na nossa vida, neste caso, profissional em determinadas posições, perto, longe, virados para nós ou de costas para nós, consoante a proximidade das pessoas ou dos grupos profissionais. Neste primeiro exercício de representação de átomo social, foi definido que todos os estudantes iriam representar os seus contextos profissionais, no domínio das relações entre profissionais nas instituições em que trabalhamos.
Ao analisar o que se passou, há que realçar os sentimentos dos indivíduos que estavam a representar o seu átomo social pareciam vir à flor da pele. Notou-se algum nervosismo, quando tomávamos o lugar de quem colocávamos à nossa volta e dizíamos o que pensávamos, sobre a opinião que os outros têm de nós.
Pareceu-me interessante e mesmo terapêutico ver-me com os olhos dos outros. Notoriamente, conseguimos uma visão externa de nós. Olharmo-nos com os olhos do outro, é sem dúvida, uma visão privilegiada, pois permite que analisemos as relações de dois pontos de vista, o meu e o do outro. Mesmo que a visão do outro seja condicionada por aquilo que eu acho que ele pensa de mim. Pode, evidentemente, conter erros de avaliação mas, sem dúvida, pode ser um ponto de partida para nos conhecermos melhor e conhecermos melhor o outro.
Construí um átomo social, baseado no Serviço de Pneumologia. Pareceu-me fácil fazer esta construção uma vez que me parece claro a posição que ocupo no serviço, assim como as relações tenho com os diversos profissionais. No entanto, quando me foi pedido para me colocar na posição desses actores e dizer aquilo que eu acho que eles pensam de mim, já não foi tão claro.
Foi difícil, uma vez que senti que poderia ser injusto com uns e não muito rigoroso com outros. O que me pareceu que aconteceu, foi aquilo que eu acho que eles pensam de mim e não aquilo que na verdade eles pensam, pois provavelmente alguns nunca manifestaram, o que pensam sobre mim, assim como, eu também nunca lhes disse o que penso deles. O que me leva a pensar que, provavelmente, as relações menos conseguidas não são por falhas dos outros, mas também por algumas falhas minhas.
A aula da tarde era novamente sobre ética. Primeiro elegeu-se o representante da turma, foi um processo democrático e unânime, uma vez que o eleito nem estava presente.
Hoje o dia académico “in loco” é bastante reduzido, as aulas só começaram ás 15 horas. Cheguei à escola ainda não tinha ninguém chegado. Pouco a pouco, os colegas foram chegando. Falámos sobre as férias, sobre o tempo enfim sobre tudo aquilo que também faz parte de um início de relacionamento. Perguntei como iam as reflexões e os portfólios de dois colegas, inteirei-me das suas intenções.
Chegou o professor Joaquim com outro professor que nos apresentou. Começou a aula. Naquele início, senti frieza de relacionamento. Depois com o passar de alguns minutos correlacionei as parecenças morfológicas e de postura do professor com as de um actor conhecido, e sorri. Não sei se de propósito ou não mas aquela atitude entrou, fez despertar as nossas mentes, senti uma certa leveza no ambiente. O que é certo é que aquilo que nos estava a ser transmitido fazia todo o sentido. Falava-se de relação de ajuda e do processo de aconselhamento. Falava-se de conteúdo manifesto e latente, falava-se de dar sentido depois de ser pensado, de dar autonomia ao outro, de noção de limites, de actos e factos, de transferência e contra transferência, enfim falava-se de muita coisa que encaixavam umas nas outras e que faziam todo o sentido no processo de aconselhamento e também na relação de ajuda.
Sempre fui muito de paixões, sempre fui muito de empatias. Senti empatia por quem diz e pelo que foi dito. Senti que realmente teria muito a aprender. Espero com manifesta curiosidade para o que reserva ainda estas aulas.
Cheguei a casa e continuei as minhas pesquisas. Estou a “atacar” em várias frentes. Este diário, que penso que é o pilar das minhas reflexões pessoais, não por conter nada de muito cientifico com recurso a autores, mas é a partir de aqui que inicio estas pesquisas.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Dias de Aulas de uma P.G.



Estava a caminho de Setúbal, sentia-me um pouco ansioso. Estava prestes a iniciar mais uma etapa na minha formação. Sinto-me entusiasmado, penso ter feito a escolha certa para o meu percurso profissional. È claro que não isento de riscos, estou a apostar numa área para a qual não tenho formação prévia específica. Por outro lado sinto que é um desafio ás minhas capacidades. A área da Saúde Mental é sem dúvida motivante, não deixando de ser desconcertante, isto se pensarmos na área que a partir de agora vai passar ser o meu foco de interesse. Desde o meu curso base, que me despertou interesse esta área, sem no entanto ter investido nela. Sinto por isso, que este desejo esteve a amadurecer, como se estivesse a hibernar durante estes anos.
Cheguei à escola, estava a começar a apresentação do curso. O auditório estava cheio. Foi com interesse que acompanhei a exposição do professor. Sentia-me em casa. Voltava a ver rostos conhecidos que, há 3 anos atrás, me fizeram ver a profissão de uma outra forma. Por outro lado, foi aquela equipa de docentes que ajudou a conhecer-me melhor e a acreditar que consigo, mesmo com bastante esforço pessoal, atingir os objectivos a que me proponho.
Chegou a hora de falar a professora Lucília Nunes. Nada mudou, está ainda mais desconcertante e motivadora. Sorri para mim mesmo, quando me lembrei daquelas aulas de ética, de como tentava “desfragmentar” aquelas aulas durante uma semana tentando reflectir sobre o que tinha sido falado.
Nas pausas, tentava vislumbrar alguns rostos conhecidos que pudessem estar na mesma situação que eu.
NADA.
No meio de tanta gente não vi ninguém conhecido. No final da cerimónia encontrei alguém conhecido, outro e outro. Á pergunta para onde entraste, a resposta era a invariavelmente a mesma, vou para a Pós Graduação Médico-Cirúrgica. Ou era para o elenco A ou B.
Saúde Mental, nada.
Mais tarde, os estudantes da Pós Graduação de Saúde Mental reuniram-se então. Descortinei duas ou três caras conhecidas, que em tempos partilhámos o tempo, neste ou naquele serviço onde trabalhei.
Entrámos.
O professor apresentou a pós graduação. Mais uma vez tive a sensação de um “dejá-vu”, só que desta vez não se falava de lagartos e dinossauros, mas sim do que nos espera no próximo ano lectivo, quiçá com sorte, no próximo ano e meio.
As “hostilidades” começaram. Iniciaram-se as aulas. Começou-se a debater as nossas visões sobre a relação de ajuda. Principalmente fez-se um enunciado sobre o que a turma quer aprender.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Os "fantasmas" formadores

História de vida como método formativo

O coração palpitava, as mãos suavam, as pernas tremiam. Sentia um calor a percorrer-me todo o corpo. Hesitei. Dei um passo atrás devido ao peso das dúvidas, cheio de receios da exposição pública, mas principalmente pelos fantasmas que me rodeavam. Inspirei fundo, abri a porta e avancei…
Tinha sido convidado por uma escola de enfermagem para leccionar uma aula. Era objectivo desta aula, dar a conhecer aos estudantes de enfermagem, uma imagem do quanto pode ser importante o papel do enfermeiro no acompanhamento de um casal infértil.
O grande problema é que esta aula se baseava na minha história de vida. Aceitei. Senti que poderia alertar os futuros enfermeiros, para os desequilíbrios, para as necessidades e para as angústias que as pessoas vivenciam quando sujeitas a uma situação de infertilidade. Inicialmente pensei, que embora não tivesse todo o suporte formativo para leccionar aquela aula, tinha a certeza de que esta não seria desprovida de sentido, uma vez que tinha vivenciado esta experiência quer como enfermeiro quer como parte integrante de um casal infértil.
Estava perante uma audiência de trinta pessoas que não conhecia, a expor um acontecimento traumático, que condicionou todo o resto da minha vida.
O aceitar este desafio, decorreu da necessidade de querer contribuir, de algum modo, para minimizar um problema que afecta tantos casais, sensibilizando os futuros enfermeiros sobre esta problemática, muitas vezes abordada apenas pela classe médica. È de salientar que neste domínio em particular, cada vez mais o papel do enfermeiro é crucial: apoiando, escutando, informando, … enfim, “cuidando do casal”. Demétrio (2005; p. 21) refere que, “Aquele momento em que sentimos o desejo, de narrarmos a nossa própria história é o sinal de uma nova etapa na nossa maturidade”.
Ao iniciar a aula, os estudantes de enfermagem sabiam que eu iria falar sobre métodos de reprodução medicamente assistidos. Principalmente sobre a área de actuação de enfermagem em cada uma das técnicas de reprodução assistida. Sabiam também, que iriam ser abordados diagnósticos e intervenções de enfermagem utilizando a CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem), tendo como exemplo um hipotético casal.
Porém, notei que, após esta hora de aula, apesar do assunto lhes ter parecido de bastante interesse, os estudantes já apresentavam sinais de cansaço e um pouco perdidos em relação às técnicas, diagnósticos e intervenções.
Foi então que adoptei outra estratégia. Comecei a contar a história de um casal infértil, com muita vontade em resolver este problema.
Com esta metodologia detectei muito mais atenção por parte dos estudantes. Penso que retiveram muito mais a temática da aula, tornando-se mais intervenientes, identificando facilmente, onde o enfermeiro pode e deve intervir. Mas o que os estudantes não sabiam inicialmente, é que aquela história era inteiramente verdadeira e aconteceu com o formador que estava perante eles.
Com esta experiência formativa, apercebi-me que utilizando a metodologia autobiográfica criava mais “desequilíbrios” ou momentos reflexivos nos estudantes. Por um lado, despertei o interesse para que sentissem a necessidade de aprender mais, numa perspectiva de autoformação. Por outro lado, para que eles se colocassem numa perspectiva de análise de casos que conheciam, desmistificando pensamentos pré-concebidos e muitas vezes socialmente estereotipados.
Tomando consciência que este tipo de situações existe e pode acontecer a qualquer casal, inclusive a cada um deles, pode prepará-los melhor no desempenho da sua actuação como enfermeiros, pois como refere Josso (2002, p. 8), “ (...) a consciência nasce quando interpretamos um objecto com o nosso sentido autobiográfico, a nossa identidade e a nossa capacidade de anteciparmos o que há de vir”. Também Canário (1999, p. 116) refere que, “ (…) a formação é, assim, feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de vida”.
De igual forma para mim, como formador foi benéfico, já que falar de um acontecimento traumático e de um processo doloroso não foi fácil, por isso, encarei este método autobiográfico como método terapêutico.
Ao contar a minha história de vida de uma forma continuada, distancio-me dela, mas não tanto para não falar com paixão de algo que me é próximo, pois como entende Demétrio (2005, p. 10) “A paixão pelos aspectos do passado, que ganham realce, transforma-se em paixão pela vida futura”.
Por outro lado, “o contar repetidamente”, permite-me enfrentar os meus “fantasmas” consequentemente uma “banalização” deste período crítico, entrando num processo de auto-conhecimento, de auto-formação, de auto-avaliação e de auto-orientação que enriquecerá os três domínios do saber. Além disso, vou também fazendo a minha catarse enquanto me revelo aos estudantes.
Ao falar sobre mim, consigo apesar de tudo, exercer uma consciência critica sobre a situação da infertilidade e ao mesmo tempo reflectir com os estudantes sobre esta temática. Uma vez que a minha reflexão leva-me a questionar a relevância da problemática da infertilidade e sobre o meu posicionamento enquanto pessoa e enquanto profissional. Analisar e reflectir sobre estas premissas são o que caracteriza uma reflexão critica. Permite-me integrar e sobretudo pensar as memórias, a capacidade de desejar, e a capacidade de tolerar a dor um projecto futuro.
Pergunto-me a mim mesmo, enquanto enfermeiro, de que modo poderia atenuar o grande sofrimento dos casais, que enfrentam um problema, para o qual não estavam minimamente preparados. Penso que, com a minha história de vida, também influenciada por uma situação de infertilidade, adquiri competências para os ajudar a encarar de uma forma positiva o problema. Gostaria também que, a minha presença nestas aulas, ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise.
Quantos de nós, profissionais de saúde, não temos “fantasmas” que nos assolam, quantos de nós não temos problemas de saúde, ou simplesmente estivemos internados num qualquer hospital. A nossa vivência pode ser útil para despertar consciências sobre a nossa actuação, sobre o nosso verdadeiro papel. Falar ou escrever sobre aquilo que nos fizeram, esperávamos que nos fizessem ou simplesmente não nos fizeram, pode adquirir outra dimensão. Em resumo, despertar consciências, ou simplesmente como dizia um professor “ver com outros óculos”, um fenómeno que nos ocorreu. Contar pode ser importante para cada um de nós, como ouvir pode ser importante para quem nos escuta.
Considero que a abordagem desta temática foi importante, pois permitiu-me a mim como pessoa e como profissional, dar o meu pequeno contributo na formação destes futuros profissionais. Permitiu-me também enfrentar os meus “fantasmas”, que consegui ultrapassar no momento em que abri a porta e avancei e no momento em que escrevo estas linhas. Apesar de tudo, pretendo continuar, pois como diz Saint-Exupéry “ Não podes continuar estático num mundo que se transforma à tua volta”.
Esta minha experiência formativa permitiu reflectir sobre duas vertentes problemáticas da autobiografia: a autobiografia como método formativo e a autobiografia como método terapêutico.
Se como refere Canário (1999, p. 109), “a experiência de quem aprende torna-se o ponto de chegada dos processos de aprendizagem”, também não me parece desprovido de verdade que a experiência de quem “ensina” torna-se o ponto de partida para os processos de aprendizagem.
Quando falamos neste assunto da formação de enfermeiros podemos e devemos enquadrar na formação de adultos. Nessa perspectiva, a formação dos enfermeiros incide bastante na importância da experiência, pois esta está intimamente ligada à prática. Consequentemente ligada à vida do enfermeiro. Já Jarvis (1992, p. 174) localiza a formação dos enfermeiros “ (…) na interface da autobiografia e do meio sociocultural em que as pessoas vivem”.
Ao terminar interiorizo Nóvoa (1988, p. 115) cit. Remy Hees (1985), “Formar-se não é instruir-se, é antes de mais reflectir, pensar numa experiência vivida, (…), é aprender a construir uma distância face à experiência vivida, é aprender a contá-la através de palavras, é ser capaz de conceptualizar”

COMENTÀRIO:

Esta experiência que me aconteceu, foi realmente algo que me fez despertar com mais intensidade a problemática das histórias de vida e como elas podem ser vistas no contexto formativo pessoal, como também dos que nos rodeiam.
O artigo inicia sobre a explicação do motivo do convite para dar aulas na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, o que já me acontece há cerca de 4 anos. A temática é sobre técnicas de reprodução assistida.
O que detectei é que se procurasse explicar as técnicas de reprodução assistida, e eu próprio identificasse o papel da enfermagem no casal infértil, os estudantes tinham alguma dificuldade em manterem-se concentrados e intervenientes na aula. Os estudantes assumiam assim um papel passivo, não participando na aula, assumindo somente um papel de fiéis depositários, sem diálogo, tal como Freire descrevia a educação bancária.
A estratégia adoptada foi diferente, então utilizei a minha própria história de vida para explicar algumas técnicas e o papel do enfermeiro. Aí notou-se diferenças na participação e na interactividade dos estudantes. Como é referido “ (…), ajudasse decisivamente os estudantes a adquirir competências emocionais para eles próprios ajudarem estes casais a superar a crise”. Há neste artigo uma intenção de educar, como refere Nóvoa “ educar é preparar no presente para agir no futuro”. Mas também de reflectir sobre uma experiência formativa, na qual se deu primazia à experiência, Alarcão refere também ela, que a experiência, para ser formativa tem de ser conceptualizada e reflectida.
Assim este artigo, funciona um pouco em duas visões, uma como a experiência como método formativo, a outra visão mais pessoal será como método terapêutico do próprio formador, por isso no título a palavra “fantasmas”, o formador como que aproveitou a experiência formativa para que, como define Canário, finalizar um processo de “autoconstrução”, tirou, reelaborou e integrou as experiências vividas.
O artigo destaca também a importância de todos nós enfermeiros, podermos utilizar as nossas experiências pessoais para as transmitirmos aos alunos de enfermagem, para com eles reflectirmos sobre a prática, pois como diz Alarcão a “globalidade da pessoa constrói-se na variedade integrada das experiências vividas e assimiladas” em “permanente atitude de observação e reflexão” que deve ser individual e dos outros também, para todos podermos crescer, já que “a autoformação permanente emerge como sinónimo de um processo de educação permanente (…) que atravessa todos os tempos e todos os lugares”, como refere Canário.